No Brasil temos 336 faculdades de design, que formam +/-12.000 designers por ano para viver no passado. É isso mesmo que você leu. (E antes que você procure “um” único culpado, não há. A culpa é do inteiro sistema educacional.)

Os conteúdos dos cursos de design brasileiros podem estar defasados pelos seguintes motivos:

  1. PRINCÍPIOS DO TEMPO DO EPA: Os princípios de design ensinados em muitas universidades repetem teorias que se parecem mais com “romantismo científico” (por exemplo: proporção áurea, gestalt etc.;)
  2. PRODUÇÃO GRÁFICA: A abordagem sobre produção gráfica está desatualizada;
  3. WEB = FOLDER DIGITAL: O design de interface ensinado trata os sites como se fossem um folder digital;
  4. TIPOGRAFIA SEM WEB: As faculdades não aplicam a tipografia na web;
  5. APPS: Fala-se pouco ou quase nada sobre design de interface para aplicativos;
  6. NÃO DIGITAL: A prática de ilustração é primariamente analógica;
  7. COISIFICAÇÃO: O foco é na produção de objetos físicos e materiais gráficos, não no design do serviço;
  8. “DEUSIGNERS” ADIVINHAM: Designers aprendem a fazer designer para agradar seu próprio umbigo ou o umbigo do cliente. Usuário? Pra quê ouvir o usuário?

Infografico Defasagem Faculdades

Enquanto a sociedade e o mercado de design vivem inúmeras mudanças, muitos cursos ainda preparam seus alunos para viverem no passado. No gráfico acima, por exemplo, é possível ver que enquanto o mercado já usa e abusa de vídeos e aplicativos, em muitas faculdades os alunos tem que aprender sobre isso praticamente sozinhos. A princípio, aprender por conta própria um conteúdo necessário não seria um problema em si. O que não tem sentido é gastar tempo com matérias e práticas que serviam há 15 anos atrás, não hoje.

Abaixo eu comento cada um dos pontos que jogam as faculdades de design no passado.

CONTEÚDO: Aulas baseiam-se em conteúdo defasado como proporção áurea, gestalt etc.

Muitos conteúdos repetidos em sala de aula foram criados há 100 ou mais anos atrás, numa época em que não existia nem microscópio eletrônico (ele foi inventado em 1933), a psicologia ainda engatinhava e os estudos sobre comportamento humano ainda não tinham influenciado o design como hoje. Idéias como proporção áurea, gestalt, diagrama de Gutemberg consideravam os seres humanos como sendo iguais uns aos outros e não levavam em conta a experiência prévia no processo da percepção. Sim, parece feio falar mal da Gestalt, coitadinha, nem pode vir se defender né? Mas a coisa é bem pior do que você imagina. Eu não iria sair falando mal assim, sem mais nem menos. E nem fui eu quem começou a se questionar sobre essas pseudo-teorias românticas, conforme vou falar num artigo que já está no forno (só falta a revisão por parte dos psicólogos).

PRODUÇÃO: Abordagem sobre produção gráfica está desatualizada

Hoje já estamos na era dos dados variáveis, da impressão colorida que consegue substituir os textos e imagens de acordo com um banco de dados, temos a gravação de chapa substituindo os fotolitos digitais, os bancos de imagens foram integrados aos softwares, a impressão em tecido por sublimação, as provas de cor que simulam quase com perfeição as saídas de impressão, temos ainda as impressoras de grande formato que também cortam, aplicam relevo, hotstamp e verniz via digital. E eu te pergunto: quantas dessas tecnologias são ensinadas ou exploradas nas faculdades? Nenhuma. Ainda vivemos no tempo do xerox e da gráfica que usa fotolito. A questão aqui nem é achar que designers são meros escravos da tecnologia ou meros operadores de impressão. Trata-se de entender que a sociedade muda, a tecnologia muda e os designers precisam se adaptar, a não ser que queiram ficar para trás (como aqueles operadores de linotipo que não aprenderam fazer outra coisa).

INCUNÁBULO: Design de interface trata os sites como se fossem um folder digital

Não faz muito tempo que as faculdades incluíram nos seus currículos conteúdos sobre projeto de interfaces para a plataforma web. Demorou para aparecer nas faculdades, e pelo visto vai demorar para sair. Já apareceram outras formas muito mais sofisticadas para produção de websites, como templates customizáveis do WordPress, layouts data-driven, frameworks javascript (jQuery, MVC, BackBone, Angular, Knockout, Prototype, MooTools, Dojo, Script.aculo.us, Kendo etc) etc. E os alunos continuam aprendendo a fazer sites como se isso fosse apenas desenhar um layout no Photoshop, fatiar e rezar para que alguém consiga transformar aquelas ideias em interação real com usuários. Exatamente como se fazia no ano 2000. Não vou nem falar de sites responsivos, senão a gente chora.

TIPOGRAFIA: Não se aplica tipografia para web

Eu estava em 2010 na cidade de Los Angeles, dando uma palestra sobre tipografia no congresso TypeCon quando ouvi pela primeira vez o termo Web Fonts. Era a salvação da lavoura: finalmente iríamos nos livrar das Verdanas, Tahomas e Ariais da vida, e teríamos uma biblioteca decente de fontes para usar nos websites! Dividi o quarto do hotel com Eben Sorkin, o responsável pelo projeto de fontes web do Google, até então com apenas 125 fontes. Hoje já são 700, só neste catálogo, e milhares nos demais concorrentes. Agora de novo a pergunta: quantas faculdades incluem o estudo da tipografia aplicada no contexto da web? Não precisa responder.

APPS: Pouco ou quase nada se fala de design de interface para aplicativos

Numa época em que o número de smartphones já superou a venda de computadores desktop, as faculdades de design ainda tratam o design de interface como sendo primariamente para websites e só. E a quantidade imensa de aplicativos sendo lançados, não precisa de uma interface também? Mas fazer um layout de tela para um aplicativo é igual a fazer para um layout de website? Às vezes eu penso que as faculdades pensam assim: “olha, não ia nem ter design de websites, então os alunos já estão no lucro. Por nós, eles só aprenderiam a fazer marquinha, caixinha e livrinho”. Daí, cobrar design de interfaces para aplicativos já seria pedir demais né?

NÃO DIGITAL: A prática de ilustração é primariamente analógica

Eu vejo muitos alunos que são ilustradores muito talentosos. A gente sabe: um aluno que manja de ilustração desenha até com retalho de gesso no asfalto, com borra de café no fundo da xícara, enfim. Mas quando se trata de levar essa habilidade para o mundo digital, parece que eles viram aleijados que perderam as mãos num acidente na mesa de ping pong. Não conseguem usar um tablet, não entendem o mundo vetorial, não conseguem entregar uma ilustração num tamanho adequado para ser usada em grandes dimensões, e isso acaba subutilizando seu potencial. Um mínimo de adequação do trabalho de ilustração no mundo digital deveria ser feito, mas as faculdades entendem que isso exigiria equipamentos caríssimos, que não há dinheiro, etc. Ou seja, o aluno vai continuar traumatizado com o ping pong.

COISIFICAÇÃO: O foco é na produção de objetos físicos e materiais gráficos, não no serviço desempenhado

De maneira simples, as faculdades preparam os alunos para fazerem objetos. Um folder, um cartão de visitas, um cartaz, uma luminária, uma mochila, um brinquedo pedagógico. Acontece que a solução de um problema nem sempre significa jogar mais lixo na natureza. O que a pessoa precisa? De um carro ou de transporte? De uma máquina de lavar roupas ou da limpeza da roupa? De um cartão de visitas ou de uma forma de entrar em contato futuramente com o cliente? Essa é a diferença entre projetar coisas e projetar serviços. Quantas faculdades ensinam a desmaterialização como prática projetual?

ADIVINHAÇÃO: A pesquisa com usuários é subutilizada

Por último, muitos cursos fabricam designers especialistas em usar bola de cristal. Ela serve como um instrumento mágico: ela te faz adivinhar os pensamentos e desejos das pessoas! Você nunca conversou com um usuário, nunca observou o comportamento de um consumidor, e, voilá! Você misteriosamente entende como ele pensa, se comporta e se sente e consegue projetar aquilo que irá atender todas as suas necessidades! Isso é incrível! Mas é falso, um desperdício de tempo. Para não ficar feio, as faculdades agora ensinam os alunos a fazer pseudo-pesquisas usando formulários do google, afinal fazer pesquisa séria significa apenas despejar umas 10 perguntinhas num formulário, enviar para o máximo de amiguinhos e isso será suficiente para descobrir a verdade do universo! Já faz alguns anos que sabemos a importância de considerar as necessidades dos usuários, mas as faculdades de design ainda estão no passado, neste respeito.

Conclusão

Em resumo, esses 8 pontos destacados demonstram como muitos cursos oferecidos pelas faculdades de design ainda preparam designers para viver no passado, ensinando conteúdos desatualizados, ignorando as mudanças no universo digital e da Internet, preparando designers para fazerem objetos e serem adivinhadores das necessidades dos usuários finais. Quem sabe, daqui a 15 anos a faculdade evolua. Mas daí, a sociedade já estará em outro tempo, e de novo ela estará atrasada.

PS: Vale lembrar que este post trata dos “conteúdos defasados”. Seria inocência achar que a questão dos conteúdos seja o único problema das faculdades. Isso é só a parte visível do problema, facilmente reconhecível. Qualquer ex-aluno de faculdade consegue se lembrar de como algumas matérias pareciam repetir os mesmos ensinamentos do século passado. Algumas faculdades poderiam dar a desculpe de que “é preciso aprender com o passado para não repetir os mesmos erros”. Mas infelizmente não é isso que acontece. Muitos ensinam coisas antigas, dando a impressão de que a prática de design ainda é a mesma de décadas atrás. Algumas pessoas alegam que é natural a universidade ser reativa, ou seja, as necessidades da sociedade mudam e depois as faculdades se adaptam à essa realidade. Concordo. O problema é quando as faculdades levam 15, 30, 60 anos pra se adaptar! Num outro post vou abordar a questão dos métodos de ensino, o sistema educacional brasileiro cheio de defeitos e a falta de apoio que muitos professores tem na hora de ensinar os estudantes.

Curiosamente, depois do meu artigo foi publicado um artigo sobre a questão do futuro da formação em design, excelente (dica do Guilherme Sebastiany). Leiam: http://m.educacao.estadao.com.br/noticias/geral,profissoes-do-futuro-as-areas-mais-promissoras-do-design,1738793#

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