Perfeccionismo: o inimigo que mora dentro de você.

Aí está você. Preparando-se para ser o melhor naquilo que você faz. Um ótimo designer. Um excelente ilustrador. Um escritor incrível. Um médico que nunca erra. Você imagina que deve entrar no jogo apenas quando estiver pronto. Só tem um problema: isso nunca vai acontecer.

Perfeccionismo

A pergunta que eu faço é: “quando é que alguém está pronto“? Quando está completamente preparado? Quando está perfeito, totalmente livre de erros? E quem é que determina o que é essa perfeição?

Na tentativa de ser perfeito, as pessoas acabam criando mais problemas do que soluções. Ao buscar a perfeição, você se torna excessivamente crítico sobre si mesmo e sobre os outros, se torna procrastinador e auto-sabotador, desenvolve crenças limitantes que prejudicam você, impede que outras pessoas confiem em você e, se você tiver filhos, pode desenvolver neles uma baixa auto-estima crônica. Não consigo enxergar nenhum benefício em ser perfeccionista, que compense tantos estragos.

Torna-se excessivamente crítico sobre si mesmo e sobre os outros

Quando a pessoa é perfeccionista, nada do que ela faz está bom. Ela tem um olhar clínico que parece descobrir defeitos onde só ela enxerga. Sob a desculpa de que ela está apenas se preocupando com a qualidade do que entrega, ela se torna escrava dos mínimos defeitos e não consegue seguir em frente.

Agora pense: se a pessoa é tão perfeccionista, por que ela não se preocupa com a perfeição de todo o processo? Uma situação perfeita deveria ser aquela em que você consegue concluir uma tarefa sem atrapalhar o trabalho de outras pessoas. Se você trava todo o processo pois não consegue terminar uma etapa, pois está procurando pêlo em ovo de galinha, você está atrapalhando as outras pessoas que só podem começar a trabalhar depois que você terminar. Um exemplo: um pintor é chamado para pintar uma parede, pois em seguida virá o decorador para pendurar os quadros. Mas o pintor nunca termina seu trabalho, pois ele quer uma pintura perfeita. E a cada pincelada que ele dá, parece que surgem mais defeitos e ali fica ele como um cão correndo atrás do próprio rabo. E o decorador atrasa seu trabalho pois depende de uma pessoa que não consegue terminar o dela. Que tipo de perfeição é essa que só consegue olhar pra si mesmo? Não seria um tipo de egoísmo? E ser egoísta é ser perfeito?

Não bastasse ser crítico de si mesmo, o perfeccionista agora mira seu microscópio para as pessoas que estão ao redor dele. Se ele é o chefe, imagine a situação: nada do que os subordinados fazem está bom. Se fica bom, não é mérito do empregado, foi apenas uma questão de sorte. O perfeccionista pode pensar: “eu não consigo ser perfeito, então é impossível que outras pessoas sejam”. E está instalado o clima de conflito, pois ninguém aguenta trabalhar num lugar onde nunca há reconhecimento pelo esforço dos empregados.

Muitas vezes o perfeccionista defende sua obsessão “perfeccionística” dizendo que está apenas zelando pela reputação da empresa. E ao fazer isso, destrói sua própria reputação, ganha inimigos e instala o clima de terror entre os funcionários. Agora uma pergunta: isso é a situação perfeita? Perfeita para quem? Talvez para ele e os donos do negócio, mas não para os colaboradores, que não tem a menor vontade de ir trabalhar todos os dias e só fazem isso por conta da obrigação de ter um salário para sobreviver. Qualidade de vida? Para quê né?

Perfeição x procrastinação x auto-sabotamento

O perfeccionista tem muito medo de errar, pois imagina que isso vai decepcionar o chefe, o marido, o papai, a igreja, a sociedade, Deus etc. Por isso, ele acaba adiando tarefas importantes, pois ele pensa “já que eu vou fracassar mesmo, não vou atingir a perfeição, então que isso aconteça amanhã, não hoje”. Dias, meses, anos depois, o procrastinador perfeccionista ainda não fez o que devia fazer, por puro medo do fracasso, de não atingir a perfeição. Com isso, ele nunca fez aquele projeto pessoal de escrever um livro, de tentar passar numa prova para melhorar de emprego, de abrir uma ONG para ajudar pessoas ou animais, de bater na porta daquela empresa para oferecer seus trabalhos como freelancer.

Neste caso, o procrastinador está imaginando que irá perder uma batalha que nem começou. O perfeccionista é inimigo de si próprio, escravo dos seus medos, e acaba criando uma guerra interna onde ele é derrotado por si mesmo. Levando em conta o fato de que temos inimigos lá fora (pessoas, sociedade, ambiente hostil), agora temos um inimigo dentro do nosso próprio cérebro. Como será possível vencer um oponente que vive dentro de nós?

Perfeccionismo e crenças limitantes

Crenças limitantes são resultados de interpretações negativas das experiências que vivemos. Em termos simples, imagine que você está usando um óculos com lentes rosas. Essas lentes fazem você enxergar tudo rosa. Outras pessoas podem usar lentes azuis e vão enxergar tudo azulado. Mas o mundo é azul? Não, o mundo tem todas as cores, mas se usarmos uma lente de uma cor só, podemos achar que tudo é da cor dessa lente. As crenças limitantes são coisas nas quais acreditamos, que nos fazem enxergar a realidade de uma forma que distorce os fatos. Se temos uma crença que diz que todo político é ladrão, toda a vez que vermos um político, vamos tratá-lo como criminoso. Mas o que isso tem a ver com perfeccionismo?

Um perfeccionista tem a tendência a julgar as coisas e as pessoas, segundo seu próprio ponto de vista. Quando faz isso, acaba enxergando defeitos e falhas que muitas vezes nem existem, ou não são graves. A partir disso, ele pode construir outras crenças como por exemplo: todo funcionário é preguiçoso, todo aluno é desonesto, todo cliente só quer levar vantagem, todo filho é incapaz de fazer algo sozinho. Num mundo cheio de falhas e defeitos, é difícil confiar nos outros, delegar tarefas, pedir ajuda, enfim, viver em grupo. Isso traz sofrimento e gera um círculo vicioso onde quem não confia gera desconfiança também nos outros.

Perfeccionistas criando perfeccionistas

Talvez a pessoa que busca perfeição não perceba isso, mas mesmo sem querer, ela pode estar criando filhos que vão ter o mesmo comportamento, perpetuando o ciclo. Filhos são máquinas de copiar o ambiente. Lembra-se da vez em que seu pai te ensinou como se gira uma maçaneta para abrir uma porta? Pois é, ele não te ensinou, você aprendeu apenas vendo, pelo exemplo. Num ambiente de cobranças, onde nada nunca estava bom, que tipo de adulto uma criança será, se ela enxergar o mundo pelas lentes do perfeccionismo?

Por que não ser perfeccionista?

Simplesmente, porque isso nos impede de criar vínculos com as pessoas, pela confiança. É esse contato que dá propósito e sentido à nossa vida, e, sem ele, sofremos. Um perfeccionsta afasta as pessoas ao seu redor, impedindo que elas confiem nele. Por que é dificil confiar? Por que todos nós sabemos que alguém que se diz perfeito, na verdade está escondendo a realidade. Ninguém é perfeito, é óbvio que todos temos defeitos. Uma pessoa que aparenta não ter falhas, está usando uma máscara o tempo todo. E quem consegue confiar em pessoas de máscaras?

A perfeição também é um ideal impossível de ser atingido. Leonardo da Vinci disse: “A arte nunca é terminada, apenas abandonada”. Você sempre pode voltar a um desenho e continuá-lo, a uma pintura e dar mais uma pincelada, a um filme e fazer mais uma edição, a um texto e adicionar palavras. Esse processo é infinito, pode ser repetido inúmeras vezes, e ficar buscando o final dele é “correr atrás do vento”. Existe um momento em que você deve decidir abandonar uma tarefa, um desenho, um texto, um filho, senão ele ficará preso para sempre em você. Na tentativa de torná-lo perfeito, a perfeição nunca chegará.

O que é realmente perfeito?

Perfeito é aceitar que podemos errar.

  • Aceitar que um marinheiro que nunca errou antes nunca conseguirá enfrentar mares mais difíceis.
  • Aceitar tirar nota 8 e poder dormir na hora certa, do que tirar notas 10 sem dormir, e um dia ter um cérebro cansado que não conseguirá tirar nem uma nota 2.
  • Aceitar um aluno que se atrasou 15 minutos para a aula, do que ganhar um inimigo que não vai mais se atrasar, no entanto não vai mais aceitar uma única vírgula do que você tentar ensiná-lo.
  • Aceitar uma pintura ligeiramente imperfeita, e ganhar a amizade do pintor que irá te ensinar como pintar sua própria parede sozinho da próxima vez.

Por fim…

Se você se sente como se estivesse aprisionado a uma auto-crítica severa, se não consegue aceitar erros seus nem dos outros, se percebe que seus projetos pessoais ficam sempre adiados por medo de não darem certo, se tem dificuldade em confiar nos outros, se tem medo de mostrar seus próprios defeitos, se está criando filhos com baixa auto-estima pois nunca atingem suas expectativas, talvez esteja na hora de procurar a VERDADEIRA PERFEIÇÃO: aceitar a natureza imperfeita do ser humano, e também sua, e entender que é melhor ter 10% de alguma coisa do que 100% de nada.

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2 opiniões sobre “Perfeccionismo: o inimigo que mora dentro de você.”

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