3 razões pelas quais é impossível prometer resultados no design

Você vê todos os dias muitos designers anunciando seus serviços. Mas você se acha diferente dos concorrentes, afinal você diz que “entrega resultados”. Nesse artigo você verá que é impossível cumprir essa promessa.

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As organizações sofrem pressões de todos os lados: dos concorrentes, dos funcionários, dos clientes, do governo, dos fornecedores. Na tentativa de sobreviver a esse processo, as empresas buscam soluções rápidas para atender as diferentes demandas que aparecem, tentando manter o equilíbrio entre tantos interesses, muitas vezes contraditórios.

Para ter soluções rápidas, as empresas buscam resultados de curto prazo. E os designers, na tentativa de atender esse desejo, tentam oferecer esses resultados que são cobrados pelas empresas. Os resultados podem ser de diversos tipos:

  • aumento do número de clientes,
  • aumento das margens de lucro,
  • redução dos custos,
  • aumento dos preços,
  • redução da perda de clientes
  • e assim por diante.

Na tentativa de agradar os contratantes, ou de se destacar dos concorrentes, muitos designers prometem o “imprometível”: “Contrate-me e eu vou resolver seu problema”. O que acontece é que designers não tem bola de cristal. Prometer os resultados que os clientes desejam significa criar uma expectativa que não irá ser atendida.

O profissional de design normalmente não promete resultados, mas ao invés disso, promete realizar o serviço de acordo com os padrões profissionais (Kevin, K. pág. 94) Essa é a única coisa que o designer consegue garantir: que seu trabalho em si será feito de acordo com o que foi combinado. E só. Agora, prometer que um redesign de marca vai gerar lucros, que uma mudança de embalagem vai atrair mais consumidores, que um novo projeto gráfico de jornal irá aumentar o número de pedidos de assinatura ou que um novo site irá atrair muitos clientes e irá fechar vendas, é pura especulação. Explicarei o porquê.

Por que é impossível prever quais serão os resultados

1. O SER HUMANO É IMPREVISÍVEL

Não há como prever resultados no design pois afirmar isso significaria dizer que o comportamento do ser humano é manipulável. Ou seja, aperte o botão A e irá acontecer o comportamento B. Para que isso acontecesse seria preciso que as pessoas tivessem as mesmas opiniões, gostos e preferências, algo que não acontece nem de perto. O máximo que o designer pode prometer (e com um pé atrás) é que uma determinada mudança irá “aumentar a chance de que algo aconteça”. E só. Interessante notar que na Semiótica Social, uma determinada imagem, layout ou tipografia, enfim, algo visual, não “significa” nada com certeza. Ao invés disso, ela tem um “potencial de significado”, que vai depender de vários fatores.

2. NEM TODO RESULTADO PODE SER REPETIDO

Quando alguns designers prometem que se determinado projeto for implementado determinado efeito irá acontecer nas vendas, por exemplo, parte-se do princípio que uma determinada técnica pode ser replicada e irá gerar efeitos parecidos em situações diferentes. Mesmo nas ciências sociais é difícil generalizar um determinado comportamento, como sendo efeito de um determinado estímulo. Nem os cientistas, que usam métodos rigorosos para “provar” que determinada ação gera alguma consequência, estão livres de contestação.

“A evidência diz”. Nós frequentemente ouvimos isso de cientistas e doutores, que afirmam que uma descoberta ou prática foi provada, usando métodos científicos rigorosos. Mas um estudo recente na Science, um dos mais respeitados periódicos, não apenas questiona essa afirmação, mas também põe em dúvida se podemos acreditar no que lemos na literatura científica – neste caso, estudos publicados em periódicos de psicologia.

3. É DIFÍCIL DETERMINAR UMA RELAÇÃO DE CAUSA E EFEITO NO DESIGN

Dentro da teoria dos sistemas, em muitos casos não é possível estabelecer uma relação direta de causa e efeito por causa do tempo de defasagem entre a ação e consequência.

As defasagens entre as ações e as consequências estão por toda a parte nos sistemas humanos. Investimos agora para colher benefícios no futuro distante; contratamos uma pessoa hoje, mas talvez sejam necessários meses para que ela se torne realmente produtiva; investimos em um novo projeto sabendo que levará anos para que comece a gerar lucro (Senge, P. 2011, p. 131)

Muitos sistemas funcionam a longo prazo. Nestes casos, as ações parecem não gerar mudanças a curto prazo. O efeito só pode ser verificado após dias, meses, talvez anos.

Imagine um chuveiro onde você ajusta a temperatura da água usando 2 torneiras, uma de água fria e outra de água quente. Dez segundos depois de abrir a torneira de água quente, a água continua fria. Você não recebe nenhuma resposta da sua ação; portanto, você acredita que sua ação não gerou efeito algum. Você reage abrindo mais ainda a torneira de água quente. Quando a água quente finalmente começa a jorrar, você recebe um jato de 80 graus centígrados. Você dá um pulo e fecha a torneira; algum tempo depois, a água está gelada novamente (Senge, P. 2011, p. 133).

No caso do design, muitas ações também demoram a fazer efeito. Você abriu a torneira de água quente, mas parece que nada aconteceu. A água continua fria. O mesmo acontece com processos de construção de marcas, que TALVEZ gerem resultados somente após 5, 10 anos (razão pela qual muitas empresas preferem investir em promoçoes de vendas, do que em branding). Nos casos em que uma ação de design pareceu gerar efeito imediato, como no caso de uma embalagem ou de um website, só é possível GARANTIR que o efeito aconteceria DEPOIS que ele realmente aconteceu. Até o momento em que o projeto começou a ser implementado, o máximo que o designer pode fazer é dizer que deu o seu melhor. E só. Não existe efeito 100% previsível, pois se fosse assim os designers seriam milionários e as faculdades seriam fábricas de designers ricos, já que eles teriam a receita do sucesso.

Conclusão

Em resumo, não há como generalizar receitas de design, dizendo que elas sempre vão funcionar. Alguns casos de sucesso não significam que o designer vai ser bem sucedido nos projetos futuros. E mesmo que surja um resultado positivo, nem sempre é possível provar que aconteceu apenas por conta do projeto de design, e que não foi causado por outros fatores.
Isso demonstra que em muitos casos o design é meramente especulativo, uma tentativa de gerar efeitos positivos. A maior contribuição dos designers não está em saber o que dará resultado e sim em evitar que se faça aquilo que se sabe que tem “menos chances” de funcionar. Portanto, ao invés de prometer resultado, seria mais sincero prometer “uma maior probabilidade de sucesso“. E só.

Referências

Sido, K. (2006) Architect and engineer liability : claims against design professionals / Kevin Sido, editor. New York: Aspen Publishers.
Senge, P. (2011) A Quinta Disciplina. A arte e prática da organização que aprende. Rio de Janeiro: Editora Best Seller.

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