A difícil arte de recusar um trabalho na crise

Talvez você já tenha passado pela situação em que precisava decidir se atendia o cliente, garantindo o leitinho das crianças, ou se recusava o trabalho, explicando para ele que aquele projeto seria um desperdício de tempo e dinheiro.

No primeiro caso, você estaria pensando apenas em si mesmo:

“Não posso recusar um trabalho. Preciso trabalhar, pagar as contas e perder um projeto pode significar entrar em dificuldades financeiras ou enfrentar a crise econômica que estou vivendo”.

A segunda opção significaria se colocar no lugar do cliente:

“Esse cliente também pode estar passando por uma crise e está usando as economias para tentar salvar um negócio com a minha ajuda. Não seria justo seguir em frente, sabendo que o cliente está apostando suas fichas num projeto que não tem condições de trazer os resultados que ele espera.”

Como você reagiria? Daria mais importância ao seu lucro ou alertaria o cliente, correndo o risco dele desistir de contratar o seu serviço?

Quando o dinheiro fala mais alto

Um exemplo dessa situação aconteceu em Natal, no Rio Grande do Norte, envolvendo farmácias e estudantes de farmácia que fingiam ser clientes. Eles apresentaram uma receita médica falsa escrita somente com rabiscos impossíveis de entender, contendo três nomes de medicamentos inexistentes, inventados na hora. A receita simulada levava a assinatura incompreensível de um médico, que também era fictício. Os estudantes foram a 40 farmácias diferentes e apresentaram a receita. O resultado foi que lhes foram vendidas 47 unidades de 17 diferentes medicamentos, entre vitamina E e antibióticos, dentre outros. O mais estranho é que nenhuma farmácia ou drogaria rejeitou a receita falsa (BRANDÃO, 2005).

O que esse teste demonstra? Que as farmácias colocaram seus interesses acima do bem estar dos pacientes. O dinheiro falou mais alto. Eles costumam alegar que não recusam as receitas pois isso poderia fazer um paciente continuar sofrendo, e recusar a venda significaria adiar o tratamento. Mas o motivo principal é que as farmácias pensam que se elas não venderem o remédio, outra farmácia concorrente irá vender, e por isso não teria sentido evitar a venda. O problema é que não passou pela cabeça dos farmacêuticos que um remédio errado poderia na verdade prejudicar os pacientes e não ajudá-los a parar de sofrer.

E você, eu, como deveríamos reagir diante do pedido de um cliente, que poderia significar apenas desperdício de tempo e dinheiro?

Situações em que a recusa pode ser melhor

Há diferentes situações em que seria preciso recusar um trabalho, mas posso dar alguns exemplos:

  • O cliente está abrindo uma empresa e vai usar todas as suas economias no negócio. Você percebe claramente que ele está fazendo tudo sem planejamento e tudo indica que o negócio vai falir.
  • O cliente está lançando um produto e não verificou a aceitação dele no mercado, e os riscos são bem grandes de ser recusado.
  • O cliente tem um produto com grande aceitação, mas a experiência de serviço tem problemas graves.
  • O cliente quer investir em comunicação, mas seu negócio não tem capacidade para absorver os clientes novos que virão.

Nos casos citados acima, e em muitos outros, o consultor ou profissional que está sendo contratado percebe que o dinheiro seria melhor investido em outras áreas como treinamento de funcionários, melhoria da qualidade, redução de desperdícios, planejamento financeiro etc.

Um caso real

Um caso exemplar aconteceu com um advogado que foi procurado para ajudar uma cliente a se divorciar. Antes de aceitar o trabalho, ele escreveu um bilhete com 4 perguntas que ela deveria responder antes de levar adiante a ideia. Ela leu as perguntas, pensou melhor e decidiu desistir do divorcio. O advogado conta que perdeu um cliente mas ganhou um amigo.

O mesmo pode acontecer com você ao explicar para um cliente as razões pelas quais ele deveria pensar melhor antes de tomar uma iniciativa. Você corre o risco de perder esse trabalho, mas em compensação, a médio e longo prazo, irá construir uma reputação de profissional ético e que veste a camisa do cliente. E profissionais assim vão bem mais longe, pois não são vistos como mercenários e sim como parceiros. E isso vale muito mais do que qualquer dinheiro possa pagar.

BRANDÃO, A. Erros de medicação: do silêncio e do estigma à luta por mudança. Farmácia Brasileira. 49: 4-17 p. 2005.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s