8 evidências que mostram que o Design Thinking é um modismo

O Design Thinking é um modismo pois

  1. consiste em ideias simples, fáceis de explicar e entender,
  2. promete demais,
  3. serve para qualquer problema,
  4. consegue ser implementado de modo incompleto ou parcial,
  5. está alinhado com o “espírito da época” (zeitgeist),
  6. é uma embalagem nova para uma ideia antiga,
  7. obtém legitimidade por meio de gurus ou empresas renomadas e
  8. é apresentado de uma forma articulada, memorável, cheia de entusiasmo.

Nos anos 80 e 90 houve diversas modas na administração, como a Reengenharia, a Gestão Total da Qualidade (TQM), o downsizing. Assim como essas práticas vieram rápido, desapareceram rápido. Abaixo eu explico por que o Design Thinking tem todas as 8 características de um modismo e tende a desaparecer também.

1. Design Thinking consiste em ideias simples, fáceis de explicar e entender

Até um leigo entende os conceitos por trás do Design Thinking. Mas seja sincero: você acha mesmo que ser inovador e “centrado no usuário” é algo tão simples assim, que possa ser dominado por pessoas sem experiência, sendo que isso é complexo até mesmo para designers com décadas de atuação profissional?

2. Design Thinking promete demais

Muitos defensores do Design Thinking o defendem como uma panacéia, ou seja, uma solução para todos os males. Algumas pessoas mostram casos que tinham desafios espetaculares onde o Design Thinking parece ter sido uma cura milagrosa. E isso acaba criando altas expectativas em quem escuta essas histórias. Mas será mesmo que implantar pesquisa, sessões de brainstorm e muitos post-its tem a capacidade de fazer o que nem outras abordagens mais sólidas da administração ou do marketing conseguiram? 

3. Design Thinking serve para qualquer problema

O Design Thinking pode ser aplicado nas vendas, na saúde, na padaria, não importa aonde. Pessoas usam exemplos do Design Thinking aplicado no desenvolvimento de software e pensam que ele pode ser adaptado para ajustar a experiência de aposentados num asilo. Ou pegam exemplos do Design Thinking aplicado em Serviços e acham que ele pode servir de base para ser aplicado em Manufatura. Use seu raciocínio: será que um mesmo remédio cura qualquer tipo de doença?

4. Design Thinking consegue ser implementado de modo incompleto ou parcial

Você nem precisa fazer tudo o que o DT prega. Não tem tempo para pesquisa? Faça só uma sessão de co-criação. Não pode fazer um brainstorm? Faça uma reunião num sábado de manhã, regada a muitos post-its. Se você implementar apenas uma parte do que defende o Design Thinking, não tem problema, afinal “nada é melhor do que alguma coisa”. Uma pergunta: de que vale uma ponte que só vai até a metade do rio?

5. Design Thinking está alinhado com o “espírito da época”

A moda da vez é a inovação, o “centrado no usuário”, o diferencial competitivo. O Design Thinking combina como uma luva com esse “espírito”, e fala aquilo que muitos gestores querem ouvir. “Vamos ouvir os clientes”, “precisamos ser diferentes da concorrência”, “diferencie ou morra” são discursos comuns dentro de organizações onde os funcionários se esforçam a todo custo para deixar sua marca pessoal e fazer aquilo que ninguém fez. E quem promete entregar exatamente isso? O Design Thinking.

6. Design Thinking é uma embalagem nova para uma ideia antiga

A Ergonomia (ou Human Factors) já propunha há muito tempo a necessidade de se adaptar o trabalho ao homem, ou entender suas necessidades e entregar o que as pessoas precisam. O próprio Humanismo (início do século XV) valorizava o ser humano e instituía a racionalidade e o pensamento científico como forma de entender o ambiente em que vivemos. O Movimento Humanista de 1969 defendia “o ser humano como valor central”. A Engenharia de Requisitos desde 1964 já apontava maneiras de entender quais as necessidades humanas para que fossem atendidas pelos projetos. Análise de Valor em 1972 já defendia a importância de se concentrar no que é prioritário para os usuários, enxugando custos com o que era irrelevante sob a perspectiva de quem usa os produtos e serviços. O Design Thinking simplesmente pegou essas práticas e mudou a embalagem.

7. Design Thinking obtém legitimidade por meio de gurus ou empresas renomadas

IDEO, d.School, Stanford, Tom Kelley, Tim Brown, Nigel Cross, Roger Martin, para citar alguns exemplos, são pessoas ou instituições que promovem a importância do Design Thinking. Mas pense: quais os motivos pelos quais essas pessoas defendem esse movimento? Eles são imparciais ou defendem seus cursos, livros e consultorias, demonstrando ter segundos interesses? Além disso, quanto tem se pesquisado e criticado o Design Thinking na academia? Se você fizer uma pesquisa nas bases de conhecimento científico, você irá se assustar. A quantidade de artigos e pesquisas é irrisória.

8. Design Thinking é apresentado de uma forma articulada, memorável, cheia de entusiasmo

Geralmente os defensores do Design Thinking o mostram como algo divertido, inspirador, capaz de operar mudanças impressionantes, e que tiraram milhões de pessoas da miséria, salvaram incontáveis empresas da falência e renovaram produtos e serviços que estavam falindo. A pergunta é: qual é a prova de que foi o Design Thinking que gerou esses efeitos? Eu te garanto que é difícil provar isso e é irresponsabilidade atribuir ao DT a cura de todos os problemas onde ele é citado, como se o desenvolvimento humano, treinamentos, política de preços, desempenho comercial, influência das lideranças, comunicação interna, propaganda, relações públicas, decisões jurídicas, mudanças sociais e até o preço do dólar não pudessem afetar o sucesso de um projeto.

Portanto, antes de considerar o Design Thinking a solução para todos os males, pense duas vezes. Você pode estar pegando um trem que não vai te levar a lugar nenhum. Você acha que é o Design Thinking que vai salvar uma organização que muitas vezes não faz nem o básico? Reflita nisso.

PS: Se você quiser uma explicação mais longa sobre esse assunto, você pode ler o post completo em: https://ideiasricardomartins.wordpress.com/2019/09/10/8-evidencias-versao-longa/

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